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Pode o Estado Legislar sobre Deus?

Publicada em: 14/03/2026 14:53 -

 

A PALAVRA ACIMA DA LEI: Pode o Estado Legislar sobre Deus?

Senado paralisa votação do PL que proíbe alterações na Bíblia — e o impasse expõe tensões profundas entre fé, política e liberdade intelectual

Análise especial | Política & Religião

BRASÍLIA — Em uma terça-feira de março de 2026, o plenário da Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal foi palco de um embate que vai muito além da política ordinária. Um projeto de lei que pretende congelar — juridicamente — o texto mais traduzido, mais impresso e mais debatido da história da humanidade teve sua votação abruptamente suspensa. A Bíblia Sagrada, que sobreviveu a impérios, inquisições e revoluções, aguarda agora o juízo de cinco senadores brasileiros.

 

O Projeto e Sua Trajetória

A análise do Projeto de Lei 4.606/2019, que pretende vedar qualquer tipo de alteração, adaptação ou supressão no conteúdo da Bíblia Sagrada, foi interrompida temporariamente na Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal na última terça-feira (3).

A proposta, aprovada na Câmara em 2022, quer impedir qualquer forma de edição, adaptação ou supressão dos textos bíblicos. O autor, deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), afirma que o objetivo é preservar o conteúdo sagrado diante de possíveis tentativas futuras de manipulação.

No Senado, o projeto ganhou uma relatora entusiasmada. A senadora Dra. Eudócia (PL-AL) destaca em seu relatório que a proposição é de extrema relevância, pois expressa o compromisso com a proteção da Bíblia Sagrada, considerada o fundamento da fé cristã por milhões de brasileiros.

Antes de chegar à Comissão de Educação, o projeto passou pela Comissão de Direitos Humanos, onde também recebeu apoio. O senador Magno Malta (PL-ES), relator na CDH, argumentou que a medida está de acordo com a Constituição, que assegura a liberdade de culto e a proteção das manifestações culturais e religiosas, e que a Bíblia representa não apenas um texto sagrado, mas também um patrimônio espiritual, cultural e histórico da civilização ocidental e da identidade do povo brasileiro.

O Freio de Damares

A suspensão ocorreu após pedido de vista apresentado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), instrumento regimental que concede prazo de até cinco dias para análise mais aprofundada da matéria antes que o tema retorne à pauta do colegiado.

A ex-ministra, ela própria pastora e figura central da bancada evangélica, não se opõe ao espírito do projeto — mas quer mais. A senadora propôs que a versão conclusiva do texto seja revisada por especialistas e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O gesto é revelador: mesmo entre os mais fervorosos defensores da pauta religiosa no Parlamento, há o reconhecimento tácito de que o projeto carrega ambiguidades perigosas.

A presidente da comissão, senadora Teresa Leitão (PT-PE), acatou o pedido e o transformou em vista coletiva, concedendo prazo de cinco dias para que o tema retornasse à pauta.

Uma Bíblia — Mas Qual Delas?

Aqui reside o nó górdio do debate. Do ponto de vista bíblico e histórico, a pergunta "qual Bíblia?" não tem resposta simples — e é exatamente essa complexidade que o projeto ignora de forma desconcertante.

A Bíblia não é um livro único. É uma biblioteca. O cânon católico romano, sancionado pelo Concílio de Trento no século XVI, inclui sete livros deuterocanônicos — como Tobias, Judite e os Macabeus — que as tradições protestantes rejeitam integralmente. A Bíblia Hebraica (Tanakh) usada pelo judaísmo não inclui o Novo Testamento. As igrejas ortodoxas orientais possuem cânones ainda mais extensos. E dentro do protestantismo brasileiro, convivem dezenas de traduções: a Almeida Revista e Corrigida, a Nova Versão Internacional, a Bíblia de Jerusalém, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje — cada uma com escolhas lexicais e teológicas distintas.

Especialistas como Walter Altmann e Lourenço Rega ressaltaram que não existe uma versão única da Bíblia. Rega defendeu uma emenda que foca na liberdade de pregação, sem impor uma versão oficial.

Essa realidade fragmentada foi o epicentro das audiências públicas realizadas no Senado. Entidades evangélicas e católicas apontaram problemas práticos e jurídicos, já que cada denominação utiliza versões diferentes da Bíblia. Representantes religiosos afirmaram que escolher uma versão oficial daria ao Estado um papel indevido sobre um texto de natureza espiritual.

O pastor Franklin Ferreira e o padre Cássio Murilo, da CNBB, também se opuseram ao texto original, argumentando que a proposta confunde o papel da fé e do Estado e pode limitar o diálogo entre diferentes tradições cristãs.

A Armadilha Constitucional

Do ponto de vista da Ciência Política e do Direito Constitucional, o projeto caminha sobre um terreno minado. A Constituição de 1988 é enfática: o Brasil é um Estado laico. O artigo 5º garante a liberdade de consciência, de crença e de expressão intelectual. O artigo 19 veda à União, aos estados e municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento — ou, em leitura extensiva, privilegiar um texto religioso em detrimento de outros.

Ao tentar "congelar" a Bíblia em lei, o Estado inevitavelmente precisaria responder: qual versão será a referência legal? Quem decide se uma nova tradução "altera" ou simplesmente "atualiza" o texto? O Judiciário estaria apto a julgar questões hermenêuticas que teólogos debatem há dois milênios?

Teólogos que participaram das audiências públicas apontaram que a proposta pode trazer problemas acadêmicos e legais, já que a dinâmica da interpretação e da reinterpretação dos textos bíblicos é recorrente do ponto de vista histórico.

Teólogos alertam que a medida poderia inviabilizar revisões técnicas, como as atualizações linguísticas tradicionais feitas ao longo da história.

É precisamente por isso que a emenda rejeitada pela relatora merece atenção. O senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) propôs o reconhecimento das versões canônicas adotadas pelas diferentes confissões religiosas, mas a relatora Dra. Eudócia rejeitou a ideia, argumentando que poderia tornar o texto bíblico suscetível a concepções ideológicas e doutrinárias de tradições não dedicadas à interpretação dos referenciais simbólicos cristãos. A rejeição é paradoxal: ao tentar proteger a Bíblia de influências externas, a relatora acabou por excluir vozes de dentro do próprio cristianismo.

O Que o Projeto Permite — e o Que Esconde

A relatora tentou suavizar as críticas com uma emenda de redação. Dra. Eudócia assegurou que permanecem garantidas a liberdade de tradução a partir de manuscritos canônicos reconhecidos pelas igrejas cristãs, a liberdade hermenêutica e a liberdade para produção e circulação de versões comentadas, infantis, acadêmicas ou artísticas.

Mas a ressalva levanta mais questões do que resolve. Se a liberdade de tradução e de interpretação permanece assegurada, o que, exatamente, o projeto proíbe? A resposta mais honesta parece ser: proíbe a publicação de uma Bíblia com acréscimos ou cortes em seu texto canônico — algo que, na prática, já não ocorre em editoras sérias e que, quando ocorre, é prontamente identificado pelo mercado editorial e pelas próprias comunidades religiosas.

O senador Magno Malta argumentou que a proposta visa impedir versões deturpadas que deliberadamente distorçam versículos ou acrescentem ideias alheias ao texto sagrado, e que a liberdade de interpretação permanece assegurada.

O argumento é politicamente eficaz, mas juridicamente frágil. Criar uma lei para proibir algo que já é amplamente rejeitado pelo próprio mercado e pela sociedade religiosa tem, no mínimo, um custo: o risco de criar mecanismos de censura que, no futuro, podem ser instrumentalizados de formas imprevisíveis.

O Contexto Político: Bancada e Eleitorado

Seria ingênuo analisar este projeto fora de seu contexto político. De acordo com dados do Censo Demográfico de 2022 citados no parecer, cerca de 88,8% da população brasileira se declara cristã. Num país onde a bancada evangélica cresce eleição após eleição e onde a pauta religiosa mobiliza eleitores com eficiência comprovada, projetos como este funcionam como sinalizadores identitários — menos legislação, mais afirmação de pertencimento.

Votar a favor da "proteção da Bíblia" é, eleitoralmente, uma posição de risco quase nulo. Votar contra, por mais fundadas que sejam as razões técnicas e jurídicas, é abrir flanco para acusações de anticristianismo. O resultado é um Parlamento que, mesmo com reservas sérias, tende a empurrar o projeto para frente — como demonstra a trajetória do PL desde 2019.

A suspensão promovida por Damares Alves, nesse sentido, não representa oposição ao projeto: representa cuidado estratégico. A senadora sabe que um texto mal redigido pode gerar constrangimentos judiciais e embaraços para o próprio campo que pretende defender.

O Veredicto da História

Há uma ironia profunda em tudo isso. A Bíblia chegou até nós justamente porque foi traduzida, copiada, adaptada e reinterpretada ao longo de milênios. Jerônimo traduziu-a para o latim (a Vulgata) no século IV. Lutero a traduziu para o alemão popular no século XVI, dando forma à própria língua alemã moderna. João Ferreira de Almeida a traduziu para o português no século XVII — e esse texto passou por revisões e atualizações sucessivas até os dias de hoje.

Congelar a Bíblia em lei é, paradoxalmente, o oposto do que garantiu sua sobrevivência e sua difusão planetária. Foi a capacidade de falar a língua de cada povo, em cada época, que transformou esse conjunto de textos semíticos antigos no livro mais lido do planeta.

O Senado tem agora alguns dias para decidir se quer legislar sobre o sagrado. A Bíblia, certamente, não precisa de proteção parlamentar. Mas o debate que ela provocou em Brasília revela muito sobre como o Brasil lida — ou evita lidar — com as tensões entre religião, Estado e liberdade de pensamento.


 

A votação, suspensa em 3 de março de 2026, aguarda retorno à pauta da Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal.

 

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